A direção de cinema na produção musical

Como o jeito de pensar cinema de Hitchcock e Coppola me fizeram um artista e um colaborador melhor

Publicado em 3 de maio de 2026

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A direção de cinema na produção musical

A música sempre foi uma força muito grande na minha vida. Desde a primeira vez que entrei num estúdio, eu soube, sem muita dúvida, que era isso que eu queria fazer pra sempre. Só que por muito tempo essa força acabou ofuscando minha atenção para outras formas de arte. Eu ficava tão imerso na música que não percebia o quanto tava deixando outras coisas de fora. Foi o cinema que quebrou isso pra mim:

A primeira vez que eu enxerguei a mesma lógica da música em outra linguagem.

No fundo, a ideia de dirigir um filme e a ideia fazer um disco começaram a parecer uma mesma coisa pra mim: realizar um projeto artístico a partir das pessoas, de momentos e escolhas específicas.

E eu comecei a ficar fascinado pelos paralelos. Pela ideia de direção. De organizar performances. De decidir quando algo entra, quando algo sai e o por quê.

Essa curiosidade toda culminou no ano passado (2025), quando eu li um dos livros mais incríveis que eu já li na minha vida: Conversations: Walter Murch and the Art of Editing Film.

O livro é todo incrível, mas destaco um trecho que bate muito forte com toda essa jornada que descrevo. Uma comparação do processo criativo entre os diretores Alfred Hitchcock e Francis Ford Coppola.

Alfred Hitchcock no set de Janela Indiscreta, 1954

O Hitchcock é descrito como alguém que já chegava no set com o filme pronto na cabeça. Cada movimento de câmera, cada corte, tudo decidido. Filmar era quase executar.

Coppola no set de One From the Heart, 1982

O Coppola não. Ele chegava com uma visão, mas deixava o processo invadir mais. Um erro, uma improvisação, uma luz diferente isso não quebrava o plano. Isso era incorporado e virava o plano.

E foi aí que essa comparação começou a ficar comigo. Porque, a partir dela, eu comecei a me perguntar com qual dos dois eu mais me parecia dentro do estúdio. Algo que nunca consegui responder direito [kkk]. Talvez porque exista uma riqueza muito grande nos dois lados e eu me encontre justamente na tensão dos dois.

Tem algo quase implacável no Hitchcock, essa clareza absoluta do que a obra precisa ser. Sinto que isso tem muita força pra catapultar qualquer projeto. Uma ideia forte, muito direcionada, que não pode ser diluída. Proteger esse direcionamento é um gesto de cuidado muito foda .

Porém essa mesma clareza também pode endurecer. Às vezes, você se apega a uma ideia com uma rigidez que ela nem pede. Você começa a defender algo não porque ainda é o melhor caminho, mas porque já decidiu que era. E, sem perceber, fecha espaço pra algo que poderia ser melhor.

Do outro lado, existe o processo aberto. Tem vezes em que a ideia ainda não ta completamente formada. E aí, a colaboração não atrapalha, ela é o próprio caminho.

É no encontro com os outros que a música começa a ganhar forma de verdade.

Livro ”The Conversations : Walter Murch And the Art of Ediitng Film”

Só que nem sempre colaborar é expandir. Às vezes, quando você já tem uma ideia muito clara, abrir demais pode começar a distorcer aquilo. E toda distorção, mesmo quando boa te afasta, de alguma forma, da intenção original. Eu cito esses dois referenciais porque eu acho que todo mundo que tem um ímpeto criativo passa por esse tipo de conflito.

"Quando eu confio totalmente na minha ideia?"
"Será que to muito apegado?"
"Será que esse apego em mim é firmeza?" 
"É confiança?" 
"Será que trazer mais pessoas pro processo ajuda?"

No fim, essas perguntas não têm uma resposta fixa. Elas vão sendo respondidas pelas relações que você constrói. Porque toda obra,  por mais pessoal que seja a ideia inicial, acaba sendo realizada a muitas mãos. E a forma como você se relaciona com isso muda tudo.

Estar consciente dessa tensão, entre saber de onde a ideia parte e entender qual “diretor” o momento pede é o que, mais do que qualquer técnica, tem me ajudado a ser um artista e um colaborador melhor.