Tanto do Possanti

Entrevista com Popoto Martins: um limiar entre desabafos, confissões e construção de mundo crível.

Publicado em 21 de setembro de 2026

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Tanto do Possanti

Em meados de agosto, marquei uma conversa com Popoto Martins, conhecido por sua trajetória na banda Raça, e que agora divulga seu mais novo projeto solo “Possanti”, lançado pela bgReal. Na ocasião, trabalhava como jornalista e redator no selo, com a função de escrever uma mini-biografia que sintetizasse a trajetória de Popoto e seu projeto conceitualmente. Naquele momento, já havia preparado o release de “PULGA”, lançamento de estreia do projeto.

Popoto é um compositor que faz muito menos ressalvas sobre a escrita de sua intimidade: “Ninguém se expõe de verdade. Até porque não é uma coisa muito sábia de fazer, eu acho”. O movimento que faz é o de contar histórias que permeiam um limiar entre desabafos, confissões e construção de mundo crível. São realidades que podem ser dele, minhas ou suas. São personagens que podem refletir sua personalidade, ou figuras que ele mesmo critica.

A ambiguidade de uma escrita que pendula entre um “criticar” e “assumir” é complementada pela leveza, humor, senso de ridículo e autoconsciência. É na sua objetividade e crueza que seu trabalho se assenta: “talvez a arte esteja aí, justamente, para ter esses sentimentos expostos de uma maneira mais agradável, mais delicada, e talvez eu não seja uma pessoa tão delicada nesse sentido, ou não me importe tanto em não ser”.

A conversa, transcrita aqui, deveria ser resumida ao passar por um filtro editorial. Entretanto, o documento comum e que geralmente não vai à público chamou minha atenção por sua carga íntima. Fiz um apelo à Popoto, que permitiu a publicação da conversa no editorial bgReal. Abaixo, disponibilizo o papo que não tinha a intenção de se tornar entrevista, e, por isso, a considero um relato.

(Foto: Yvã Santos)


[PEDRO]: Como você começou na música? 

[POSSANTI]: Com 9 anos eu já estava tocando violão. Com 13 eu comecei minha primeira banda de verdade. Fiquei tocando nela até os 18. Era a “Muda”, uma banda de hardcore. Também tive uma breve passagem numa banda de grindcore com uma galera do Capão Redondo, uma quebrada de São Paulo, que se chamava “Pode pá”. Numa época eu me interessava por música extrema, curtia dar uns berros. Daí formei o “Raça” meio que para ser um contraponto a tudo isso que eu já fazia. A gente abria para essas bandas de hardcore mais extremo e só éramos considerados extremos porque fazíamos uma música muito lenta, se comparado com as músicas deles. 

A gente estava se desafiando a fazer uma coisa que era o contraponto do movimento que a gente participava. Acho que isso define um pouco da minha trajetória como artista no geral. Ver o que está sendo feito e ir um pouco ao contrário, causar um estranhamento. Acho que essa é uma pesquisa minha. No desenho também. Meu desenho veio junto com essa minha formação a partir do Raça, quando comecei a ter uma troca maior com o público e que é quando realmente vem à tona o “Popoto”.

[PEDRO]: “Popoto” vem como um pseudônimo para seus desenhos?

[POSSANTI]: Eu trabalho com design gráfico, design de estamparia de roupa. Trabalhei durante uns 6 anos com moda para algumas marcas que fizeram barulho aqui na cidade. Já tive minha marca própria: chamava “Bizerros”. Chegou a vender bastante nas Voids, na época que nem tinha Voids em São Paulo ainda: Era só no Rio. Fiz algumas collabs com marcas grandes, tudo desenho autoral.

Eu assinava como Popoto e também tinha o trampo de tatuagem. Era meio doido, mas viabilizou muita coisa. Ia para Belo Horizonte, Rio de Janeiro, levava uma maquininha e tatuava gente. Nessa minha frente como artista visual sempre assinei como Popoto. Quando pintava um quadro, eu não assinava, até agora. Faz uns dois meses, eu comecei a assinar como Marcelo Martins Ferreira, que é meu nome de batismo…

Gosto de distanciar um pouco a minha pessoa do palco com a minha pessoa em casa, onde processo é muito íntimo. (...) A assinatura, para mim, é só uma formalidade, porque, na verdade, a arte já está ali, o traço já é meu. Se alguém olhar (e me conhecer), já vai identificar que é meu trabalho. Não precisa estar escrito. É uma coisa engraçada, isso. Eu acho que a assinatura em si é uma coisa que é um pouco irrelevante, mas, ao mesmo tempo, é uma ferramenta de comunicação. Então eu acho que, até por isso, o nome Possanti foi uma coisa importante de se colocar, e não somente Popoto.

(Foto: Yvã Santos)

[PEDRO]: Ia te perguntar isso. A decisão de construir um novo projeto e não estar se apresentando como a sua persona dos palcos somente...

[POSSANTI]: Acho que o Possanti é um nome um pouco mais empoderado, mais para frente mesmo, no sentido de tomar posse ou tomar controle de “um possante”, de eu poder, realmente pisar fundo. É meu projeto solo, mas quando pensei em Possanti, eu sempre pensei nessa estrada por onde vou dirigindo algo, mas não estou indo com minhas próprias pernas. Estou em algum veículo e esse veículo são as parcerias que consigo ter, tendo essa autonomia de ser um projeto solo. Posso escolher meu próprio produtor, eu posso escolher o carro que eu quero dirigir. A produção seria o “possante”, na verdade, e quem está dirigindo talvez seja o Marcelo. Eu não sei, mas eu consigo estar por trás disso e ter as rédeas nesse caminho. Nessa estrada que... sei lá para onde vou.

(Foto: Yvã Santos)

[PEDRO]: Uma outra decisão que você toma é sobre sua escrita. De alguma forma, ela se mantém. É uma escrita muito identificável, os temas são familiares para quem já acompanhava seu trabalho no Raça, mas esteticamente é outra coisa, sonoramente é outra coisa… Essa é uma decisão para o “Pulga”? É uma direção que você vai mudar ou uma identidade que você quer trabalhar com mais calma?

[POSSANTI]: Eu acho que o projeto toma essa liberdade de conseguir vestir várias roupas, várias estéticas sonoras. Minha poesia consegue navegar vários caminhos, e acho que o “Pulga” é meio que uma prova disso, de conseguir trazer a minha escrita e minha narrativa para uma roupagem que não é a do Raça. Para chegar nesse EP, fiz mais uns dois ou três antes. Tem coisa de rap guardada com produção do Gustavo Lessa, por exemplo, tem coisa com João Viegas que tocava comigo no Raça que é mais uma vibe Toro y Moi (…) Ou seja, é um projeto em que consigo explorar o que eu ouço. É essa liberdade de eu poder ser quase que minha própria playlist.

No Raça, eu não tocava muito o que eu escutava. Eu tocava o que era natural para a gente, o que soava coerente com a banda - sem muitas amarras também - mas se construía um universo a partir de cinco outras pessoas que tem referências que, se não forem convergentes, elas não acontecem. Agora sou uma pessoa mais livre em relação a isso.

(Foto: Yvã Santos)

[PEDRO]: No Raça você já incorporava de alguma forma sua pesquisa visual e agora, com a capa do “Pulga”, também. Você consideraria o Possanti como um projeto de várias linguagens. É uma plataforma que você quer utilizar para trabalhar suas pesquisas visuais?

[POSSANTI]: Eu acredito que a direção de arte vai ser sempre minha. Talvez eu não faça a próxima capa, mas eu vou achar um artista que eu acho que tem super a ver e eu vou trabalhar junto. Com certeza é uma plataforma para eu conseguir continuar exercendo essas coisas que me trazem prazer de viver. Eu gosto de desenhar camiseta, por exemplo, gosto de fazer meu próprio cartaz, então nesse evento eu fiz questão de fazer o meu próprio e é uma coisa que eu procuro não abrir mão. Não vou deixar de fazer a minha comunicação visual porque eu gosto das coisas amarradas assim. Então, eu acho que pode se considerar sim um projeto multimídia, mas não sei se é essa a palavra.

[PEDRO]: É, eu também estou tentando encontrar. Multilinguagem?

[POSSANTI]: Sim! É uma forma de expressão, interessante. Dessa vez eu tenho o Thomas trabalhando comigo e ele é designer gráfico também. A gente trabalhou durante anos junto numa marca de roupa. Então a gente tem referências próximas. Ele tem familiaridade com a parte do design gráfico de diagramação, editoração. A gente fez as fotos agora também. Eu gosto muito de ter esse direcionamento, de passar para o fotógrafo referências, ângulos…

[PEDRO]: É importante isso porque é o exemplo perfeito de como o projeto não é só o que você vai apresentar nesse EP agora. Ele já nasce diferente e se transforma.

[POSSANTI]: Isso! E o “Pulga” talvez seja a escolha estética mais próxima que eu pude encontrar do meu trabalho com o Raça. Porque ainda tem um pouco de rock. A batida é um pouco mais para frente do que o Raça, que é uma coisa que eu estava sentindo falta na banda. Eu consegui suprir algumas demandas que eu tinha e tentar fazer não ser tão esquisita nessa transição.

(Foto: Yvã Santos)

[PEDRO]: Quando eu escutei eu achei super natural. O que eu achei engraçado é que o 27 ele é mais doce e delicado em muitos momentos assim. O caminho mais óbvio seria achar que você gostaria de falar mais delicadamente, mas não, o “Pulga” é mais agressivo.

[POSSANTI]: Acho que é a mesma coisa que eu já tinha feito antes quando troquei o projeto de hardcore que eu tinha pelo Raça. Eu via outras bandas de indie da Balaclava que tinham uma direção mais leve e pensei: "Talvez eu não seja tão “de boa” assim. Talvez eu não queira estar tão de boa assim". Minha vida pessoal também mudou bastante desde o lançamento do Raça para esse projeto. É engraçado, porque é tão íntimo que o que o posso falar é o que está escrito na letra. São coisas que eu não gostaria de dividir com mais ninguém além de mim e dos meus íntimos, sabe? A vida fica muito louca com o tempo.

Eu tive o luto da minha mãe, nesse EP teve final de relacionamento também. Negócio de parar de usar droga, sabe? Umas coisas assim. São sempre “chavinhas” da vida, chega um momento que faz sentido dar essa vírgula. Eu acho que é isso, meus trabalhos têm um pouco disso, das vírgulas na vida…

[PEDRO]: Eu sempre senti muita intimidade nas suas letras. Ao mesmo tempo sentia que existia uma brincadeira ali. Será que ele está falando dele mesmo? Às vezes parece que não, às vezes parece que sim. Às vezes claramente é um personagem. Eu sinto que no Possanti é um negócio tão pessoal que é até um pouco assustador, corajoso.

[POSSANTI]: Eu acho que é bem por aí. É minha entrega total ali no que eu sinto que eu posso somar nesse mundo que parece que ninguém se expõe de verdade. Até porque não é uma coisa muito sábia de fazer, eu acho. A gente já se expõe o tempo inteiro na internet. Eu não sei, talvez a arte esteja aí justamente para ter esses sentimentos expostos de uma maneira mais agradável, mais delicada, e talvez eu não seja uma pessoa tão delicada nesse sentido, ou não me importe tanto em não ser. Talvez mostrar minhas fragilidades seja uma forma de ser um pouco anti-romance. Anti... não sei se a palavra é “vaidade”...

[PEDRO]: Entendo.

[POSSANTI]: Ser só um pouco mais cru mesmo.

[PEDRO]: Hoje as pessoas usam termos como “performático”. Ser menos isso. Mais cru.

[POSSANTI]: Exato. O que não deixa de ser estético também.

[PEDRO]: Eu estava um pouco confuso em como abordar esse texto. Pelo que estou entendendo do nosso papo, o texto não deveria ser uma bio de Popoto, mas sobre como sua vida orbita a ideia de Possanti…

[POSSANTI]: Eu acho que se a gente quiser entrar numa questão biográfica mesmo, de o porquê que tudo isso aconteceu assim, a gente pode fazer alguns parênteses.

Eu fui um filho adotado, por exemplo. Minha mãe era professora, então eu estudei em escola particular e tive acesso a todos os ambientes que eu pude permear. No meu colégio só tinha gente branca, então eu sempre fui esse... não gosto de falar isso, mas... “patinho feio”, sabe? Uma coisa meio deslocada ali. Por isso sempre tive essa minha rebeldia direcionada pra “merda”. Bebia muito, fazia isso, fazia aquilo. Fui para o punk rock, fui pra expressões de rebeldia mesmo.

Com o Raça eu estava mais a fim de agradar. Eu queria fazer um som que minha mãe ouvisse e fale: "Nossa, que bonito! Que legal". E agora, como não tenho mais mãe, meio que foda-se tudo. Eu posso ser o quão rebelde eu quiser ser. Mas agora, um rebelde mais consciente, terapeutizado, sabe? [risos]. Mais velho. Com um certo humor também, mais auto consciente, tanto em relação aos meus atos, quanto ao meu lugar na sociedade, de onde vim e aonde estou. Tem esse lugar mais pessoal, mais biográfico, um porquê desse trabalho e o porquê eu acho ele tão coerente no final das contas.

Na primeira música eu já falo sobre essas coisas. O nome da faixa é “Adotado”. Esse negócio de você se sentir adestrado num lugar... Não sei se vale a pena falar esse tipo de coisa, mas sei lá. Fui criado por uma mãe solo. Nunca tive uma referência de homem durante a minha infância. Ela nunca namorou, enfim. Essas paradas assim que eu acho que são essenciais para fazer um pouquinho mais de sentido, do porquê que eu faço o que eu faço, como eu faço, e porque eu tenho certos valores. Isso deixa o trabalho um pouquinho mais coerente.

[PEDRO]: Eu acho perfeito. Inclusive, é uma outra característica sua que eu observo. Apesar da exposição, dessa expressão bem crua da sua vida ou do que você acha das coisas, tem essa coisa que do humor, como você disse. Da leveza. Não sei, parece ter um senso de ridículo? Algo como: “eu sei que isso talvez seja bobo, ou que eu mesmo seja bobo, mas sinto e quero dizer”. Eu acho que isso é muito especial na sua escrita. Outras pessoas, outras escritas levam os mesmos temas para um lugar do peso - peso esse que talvez as coisas tenham, de fato - do sofrimento e da emoção que aquilo carrega. Você consegue apontar para isso, mas não carrega ninguém ao fundo do fundo do poço. Eu acho que isso diz muito sobre como você encara a vida.

Isso também se reflete, de alguma forma, nas escolhas estéticas. Você está falando sobre temas que são muito íntimos, mas está rolando uma batida bem pra frente, uma guitarra pra cima. Eu acho massa pincelar algumas dessas coisas que você falou, porque eu acho que é uma dicotomia interessante, sabe? Possanti poderia ser um trabalho super para baixo, pesado e denso.

[POSSANTI]: É isso! Poderia ser um acústico também, como você falou. Só que eu tenho pavor de carreira solo acústico. Pavor! [risos]. Talvez quando eu fizer 56 anos, não sei.

[PEDRO]: Quando for a coisa mais improvável que você puder fazer for pegar um violão.

[POSSANTI]: Exato! Lá vou eu... O próximo EP certeza que vai ser voz e violão [risos].

[PEDRO]: Eu fiquei com vontade de transcrever isso como uma entrevista.

[POSSANTI]: Maravilha! Adorei.

[PEDRO]: Gostei muito das coisas que você falou e muita coisa ficaria de fora da bio, então pode ser uma boa.

[POSSANTI]: Pô, demais! Pode ficar à vontade.

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